Ninguém sabe bem

Nos próximos dias, três, estou de licença, longe da linha da frente. Recato-me. Lavadas as roupas do uniforme, serão colocadas a secar e prontas para vestir segunda-feira. Daqui a três dias.
Ontem não sabia a quantas andava. Quando me disseram para ficar em casa de sexta a domingo, não sabia que era quinta. Como contam que é nas guerras, estava a perder a perder a noção dos dias.
Apesar de o utilizar abundantemente, não gosto deste paralelismo bélico que nos estão a colar.
O inimigo é invisível, está entre nós. Mais curioso: o inimigo somos nós.
Nesta batalha contra nós, levando connosco todo o fado do que somos, do que temos, das relações que nos fazem Ser, temos de defender os outros de nós. 
Nestes três dias de licença, o mais isolado possível, defensivamente evito contactos. Desde logo o contacto com colegas de trincheira. Foram dias de ânimos palpitantes, medos inconfessáveis, desalento calado e revoltas várias. Também de solidariedade e civismo. De mudanças de opinião, de incertezas.
No isolamento pequeno burguês, penso nas trincheiras recuadas como a minha, nos conselhos que seguirei racionalmente da linha da frente dos médicos, e com confiança nas altas patentes, o comandante em chefe, as generalas, os adjuntos de campo e aquele marechal das selfies, até nele, para já.



0 comentários :: Ninguém sabe bem

Enviar um comentário